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TEXTOS / "VAMOS CHAMAR O VENTO" - TEXTO DE RICARDO CRAVO ALBIN


Meu amigo Fernando Rocha transita pacificamente entre o psicanalista e o cantor popular. Pacificamente? Confesso que ao ouvir este delicioso “Vamos chamar o vento F. R. canta Caymmi”, um disco tão profissional que presumível de cantor de profissão única (a de cantor), pensei cá comigo: “agora o Fernando vai precisar mesmo de um colega psicanalista melhor ainda que ele para ajudá-lo a lidar com o dualismo desconcertante, porque o pacificamente vai ficar cada vez mais distante”. Digo isso – e temo pelo duplo exercício profissional – por que este disco é dos melhores que ouvi e exige atenções mais veementes que as solicitadas apenas a um amador. Que Fernando sempre foi um cantor – pleno e realizado – eu sempre soube, a partir dos dois espetáculos que criei, dirigi e apresentei para o grupo “Cantores do Chuveiro”, onde ele brilhava ao lado de outros ótimos cantores que se dizem amadores, apenas porque continuam a exercer profissões paralelas bem sucedidas. E sempre soube disso também por seus CDs anteriores, dedicados a Cartola, à música francesa ou à música nordestina.

A beleza deste CD – abrigando a música de Caymmi, compositor universal e de minha predileção a partir de sempre – é indiscutível e potencialmente perigosa para os pacientes do Doutor Fernando, que bem podem ficar a ver navios, sem médico para lhes tornar mais livres as cucas... Porque “Vamos chamar o vento” vai exigir do titular mais shows, mais apresentações, mais atenções ao ato sacralizado, quase canônico, do cantor profissional.

Não vou nem me deter aqui nas canções do meu amado Dorival – todas obras-primas indiscutíveis, a não ser a não menos adorável embora menos conhecida Canção da Primeira Netinha – até para evitar o lugar comum dos elogios desnecessários. Chamo, porém, a atenção que a beleza deste precioso CD mora na contenção e na elegância da simplicidade – parâmetros ideais da própria música caymmiana – tanto dos arranjos de Alain Pierre quanto da atmosfera “cool” de todo o disco, em cuja linha de frente está precisamente a voz de Fernando Rocha, suave como o vento, doce como o balançar dos coqueiros, firme como o mar de Caymmi.

Além – é claro – das participações especiais, a começar pelo canto de Danilo Caymmi, este herdeiro em gênero, número e grau de nenhuma degenerescência. E a se concluir pela participação criativa dos filhos Felipe e Rafael e pelas vozes de Silvia Machete, Paloma Lima, Marina Lutfi, Ana Cláudia Lomelino, Muri Costa, e dos netinhos Martim & Mia. A par dos músicos, todos de primeira linha.
Em resumo: Fernando Rocha fez um CD definitivo. Que causará inevitável prazer – quando não surpresa por se tratar ainda de cantor, insisto, que se diz amador – a qualquer ouvinte que possa gostar da melhor MPB.

Ricardo Cravo Albin

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