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IMPRENSA / CANTORES DO CHUVEIRO / JORNAL DO COMÉRICO / 2001


Os Cantores do Chuveiro - Jornal do Comércio, 11/06/2001
E no entanto é preciso cantar, e alegrar a cidade

Por Augusto Ribeiro

Mesmo nos primeiros tempos, não seria adequado chamá-los de grupo de amadores – o currículo artístico de alguns deles já registrava apresentações no curcuito comercial. Mas também não eram profissionais: não viviam da música, e sim do trabalho desenvolvido nas carreiras em que se destacavam. Mas hoje, depois de três anos de atividades, e com portfólio que inclui shows de sucesso em Paris, e convite para cantar no Cassino do Estoril, em Portugal, os Cantores do Chuveiro, que há três meses lotam o Teatro de Arena, no shopping center da Rua Siqueira Campos, já têm biografia artística que desperta a atenção de empresários do show business.
A história começou em encontros e saraus, na casa do escritor e jurista Octávio Mello Alvarenga, e sua Mulher Sílvia Waschner, à época cônsul do Equador no Rio de Janeiro. Mineiro que passou a infância e juventude ouvindo e fazendo serestas, quando recebia os amigos, Octávio não dispensava a presença de conjunto musical que, pelo meio da festa, convidava todo mundo para cantar. Nessas ocasiões animados cantores de chuveiro encontravam espaço para mostrar seus dotes vocais. Também participavam dos encontros artistas consagrados, como Maria Lúcia Godoy, amiga de infância de Octávio, ou gente de teatro. Certa noite Eva Wilma e Carlos Zara mostraram que, além de excelentes atores também teriam tido sucesso, na área musical.
Em reunião na casa da lexicógrafa Maria Bayrd Ferreira, (viúva e principal colaboradora de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira), presentes vários cantores de chuveiro, “a cantoria foi desvairada”, segundo contou mais tarde Marina. Diante de Tônia Carrero, que se deliciava com o que ouvia, a escritora Edla Van Steen bateu o martelo: precisavam organizar um show e se apresentar em público.
Dias depois, no apartamento de Edla e Sábato Magaldi, no Rio de Janeiro, realizaram a primeira reunião de “trabalho”. Lá estavam Octávio, uma tímida Sílvia, ainda hesitante diante da possibilidade de enfrentar as luzes da ribalta, Laura Sandroni cuja especialidade era a canção francesa e já se apresentara em espetáculos beneficentes, e a atriz e psicanalista Cecília Boal. O repertório começou a ser discutido: a idéia era fazer um show com música popular brasileira e latino-americana, para dar uma colher de chá para Sílvia, equatoriana, e Cecília, argentina. Músicas francesas não entrariam, pois Laura, desde os 14 anos, quando foi a Paris com os pais e encantou-se com Yves Montand, Edith Piaff e Henri Salvador,cultivava sua Douce France. Tinha pronto um espetáculo solo e poderia desiquilibrar o grupo. Edla acenou com a possibilidade de convidar Ney Latorraca para dirigir o show. No encontro seguinte, na casa de Cecília Boal, compareceram outros candidatos a cantores. Entre eles a psicanalista Suzana Tonin, pernambucana de voz parecida com a de Araci de Almeida e pianista que desde garota cantava para os amigos. Desde o primeiro momento ela disse ao que veio e hoje faz o público vibrar, quando entra em cena. Também compareceu e o embaixador Afonso Arinos de Melo Franco, que fora colega de Vinícius de Moraes no Itamarati e, com sua bela voz de seresteiro, conhecia todas as canções do poetinha e, de resto, quase todo o cancioneiro dos anos 50 e 60. O escritor e professor de literatura Domício Proença Filho, tenor versátil, especialista em áreas líricas e canções italianas, não pôde aceitar o convite, devido a compromissos profissionais em outros estados. Edla, que dividia seu tempo entre São Paulo e Rio de Janeiro, percebeu que não teria condições de participar dos ensaios semanais, mas permaneceu como madrinha do grupo e organizou outro conjunto em São Paulo, o Sem Compromisso.
Latorraca estava ocupado com outros trabalhos e Augusto Boal, diretor de renome internacional, inovador, criador do Teatro do Oprimido e “last but not least”, marido de Cecília, aceitou dirigir os cantores de chuveiro que pela primeira vez iam pisar num palco iluminado. A canção de Orestes Barbosa veio à mente de todos e Boal sugeriu que o show se chamasse Chuveiro Iluminado. O nome pegou.
Agregou-se ao grupo o médico psicanalista Fernando Rocha, que também se dedicava à música popular em shows e com um CD já lançado (hoje são dois). Fernando mostrou versatilidade e voz privilegiada, que cantava desde Cartola até a música do agreste pernambucano. A primeira providência de Boal foi pedir uma lista das músicas que cada um desejava cantar sobre amor/dor de cotovelo/fossa/reconciliação e em seguida montou um diálogo musical com o material proposto. Os ensaios começaram na casa de Suzana Tonin, com o maestro Paulo Malagutti (o Paulinho Pauleira) ao piano. Mais tarde Malagutti chamou o esperiente violonista Mury Costa, e o jovem Rafael Rocha, para a percussão.
O primeiro espetáculo dos cantores foi apresentado no dia 4 de março de 1999 no porão do Teatro Laura Alvim, um espaço modesto, de apenas 70 lugares, o suficiente para receber os amigos. Mesmo assim um dos filhos de Octávio alertou:
_ Você vai ter que comprar ingressos para convidar os amigos. Todo mundo vai pagar mico.
Eles realmente convidaram alguns amigos, e com uma platéia disposta a aplaudir – mesmo que eles pagassem mico -, o primeiro espetáculo foi um sucesso. Na semana seguinte já não era possível convidar amigos, a bilheteira não tinha mãos a medir e quem queria ver o show precisava comprar o ingresso com antecedência. Com a casa sempre lotada, o grupo se apresentou durante dois meses no Laura Alvim, e a repercussão na imprensa foi excelente. Entre outros, Affonso Romano de Sant Anna fez rasgados elogios e o crítico Ilmar Carvalho registrou o show como um marco na história musical da cidade.
Ainda desconfiados de que o sucesso poderia ser passageiro, mas animados pelo entusiasmo de Laura Sandroni, que acreditava na existência de um público ainda maior que o do Laura Alvim para o repertório do grupo, em agosto o Chuveiro Iluminado apresentou-se no Teatro do Planetário e novamente o público compareceu para lotar a casa.
Em setembro, a convite do Teatro do Oprimido, de Augusto Boal, o Chuveiro apresentou-se em Paris, no teatro L Èppée de Bois, na Cartoucherie de Vincennes, onde também funciona o Théâtre du Soleil, de Ariadne Mouchkine.
Na véspera da apresentação Octávio encontra-se com uma senhora simpática que recolhia bilhetes no teatro ao lado e como é de seu estilo, logo puxou conversa:
– Será que amanhã teremos público interessado em ouvir brasileiros, cantando música romântica?
– Claro que sim! O amor nunca sai de moda – respondeu a senhora que, mais tarde, Octávio soube, era a própria Mouchkine, que torceu pelo sucesso do Chuveiro.
No dia da estréia público formado por brasileiros e franceses se deliciou com o show.
Fernando Pedreira, então embaixador do Brasil na Unesco comoveu-se às lágrimas. O embaixador e acadêmico Sérgio Corrêa da Costa, que também é cantor de chuveiro, fez rasgados elogios ao grupo. Naqueles dias, para o grupo brasileiro, Paris foi uma festa. E no regresso ao Brasil, ainda embalado pelo sucesso parisiense, o Chuveiro Iluminado encerrou sua carreira com uma temporada no Planetário.
Em 2000 o grupo ansiava voltar a cantar. Octávio Mello Alvarenga procurou o Sesc de Copacabana, que se mostrou disposto a patrocinar o grupo. Augusto Boal não podia continuar, devido aos seus compromissos no Brasil e no exterior e Ricardo Cravo Albin, crítico, historiador e um dos maiores conhecedores da música popular brasileira, convidado para escrever o roteiro, aceitou na hora. Ele selecionou os compositores que marcaram cem anos da MPB e montou o roteiro com algumas canções sugeridas pelos cantores. Dudu Sandroni assumiu a direção de cena e a atriz e figurinista Patrícia Bueno, que trabalhara com Charles Moeller e Cláudio Botelho em Cole Porter, assinou os figurinos, Como se esperassem essa crise de energia, causada pela incúria do governo brasileiro, os cantores mudaram de nome, de Chuveiro Iluminado, para Cantores do Chuveiro.
O grupo convocou a arquiteta e cantora Clara Redig, que já se apresentara em shows e tem dois CDs na praça para o lugar de Cecília Boal. Afonso Arinos não pôde continuar, e foi substituído por Octávio Brandão, engenheiro e empresário, filho de Octávio Vieira Brandão, médico pediatra e maestro, professor catedrático de terapêutica pela música do Conservatório Nacional de Canto Orfeônico, hoje Unirio, onde era assistente de Villa-Lobos. Desde jovem Octávio dedicou-se à MPB, apresentou-se no Pub, no Leme, com Valeska e Josemir e em outros espetáculos.
Os cantores do Chuveiro estrearam no teatro do Sesc em Copacabana e em seguida realizaram shows nos teatros da Tijuca, Madureira, São Gonçalo e Nova Iguaçu, sempre com casas lotadas e público entusiasmado.
Em vários espetáculos alguém da platéia se levantava, ao final, para agradecer o grupo pelas músicas apresentadas. Terminado o circuito do Sesc, o produtor Miguel Bacelar programou o horário alternativo de segundas e terças no Café Teatro Arena, que já apresentava de quinta a domingo o musical Cole Porter de excelente nível artístico.
Mas mesmo no horário alternativo, os Cantores do Chuveiro conquistaram o público.
Depois do espetáculo, muitas pessoas diziam que já haviam assistido duas, três vezes, e viriam de novo, trazendo a mãe, a tia e a avó.
Com casas lotadas e muita gente voltando da bilheteria, Patrícia Bueno sugeriu a Cláudio Magnavita, o empresário de Cole Porter, que fosse ver os Cantores do Chuveiro.
O sucesso era tão grande, que na noite em que foi ao Arena, Magnavita não conseguiu lugar, ficou sentado na escada, encantado com o musical e espantado com aquele sucesso.
Quando terminou o show, ainda ouvindo os demorados aplausos e vendo as expressões das pessoas que saíam sorrindo e de alma lavada, como disse mais tarde o jornalista Zuenir Ventura, o empresário comentou:
– Mas é um milagre!
Não era milagre, mas sim a fabulosa química resultante da reunião de cantores que amavam a música e se entregavam com entusiasmo à sua arte. Magnavita aprendeu muito, naquela noite. Conheceu pessoas que faziam o espetáculo para mostrar a beleza do tesouro musical esquecido pelas gravadoras e pelos empresários. O público entendia a mensagem, se identificava com os cantores e os aplaudia demoradamente. E como a temporada do Cole Porter no Arena terminava, Magnavita se interessou em empresariar o grupo, no horário nobre, isto é, de quinta a domingo. A iluminação, até então do espetáculo anterior, poderia ser afinada para os Cantores. Convidou o coreógrafo Renato Vieira para sugerir a movimentação no palco e entregou aos artistas microfones sem fio, que davam maior liberdade em cena.
O grupo dos Cantores do Chuveiro passou a ter um empresário. E como o empresário antes de tudo pensa em retorno, Magnavita sugeriu aumentar o preço, de R$ 15, para R$ 20 (os sábados R$ 25) e um intervalo, para nas suas palavras, vender o programa que ele mandaria fazer, além de movimentar um pouco o bar do teatro. E assim, no dia 15 de março o espetáculo voltou ao palco do Arena; era o mesmo show, animado e despojado, sem sofisticação impostada ou provinciana, mas genuinamente humano, com músicas que sugeriam lembranças e davam saudade sem provocar saudosismo.
A única diferença: com microfones sem fio os cantores podiam se movimentar com mais facilidade. E mostraram grande agilidade, levando em conta que todos já passaram dos cinqüenta. Octávio Melo Alvarenga, romancista premiado, jurista, presidente da sociedade Nacional da Agricultura, e no palco, além de cantor, misto de Charles Chaplin e Arturo de Córdova, completou os seus primeiros setenta e cinco anos durante a temporada.
E assim os Cantores do Chuveiro continuam se apresentando, (e continuarão, até o dia 24 de junho) na base do talento e do amor pela música, para dizer que antes de tudo é preciso cantar e alegrar a cidade. Embora veteranos na vida, vitoriosos nas carreiras que abraçaram, pais e mães de família, alguns com netos, se encontram ali, na realização de uma vocação sempre presente, mas revelada e descoberta, em alguns casos para surpresa deles mesmos, na maturidade. Com entusiasmo que se poderia dizer juvenil, tônica do grupo desde o primeiro espetáculo, emocionam e fazem rir o público, que adere gostosamente ao alto astral do show.
E como diz Laura Sandroni:
– Nada mais revigorante, do que, ao fim do espetáculo, quando a gente se inclina para agradecer, com o teatro na penumbra, levantar a cabeça e ver, no acender das luzes, o público aplaudindo de pé. É uma sensação maravilhosa.

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